A IA vai substituir programadores? O que eu vejo de dentro

· 6 min de leitura

Tem dois discursos sobre IA e programação circulando por aí. Um diz que programador vai acabar em poucos anos, porque qualquer pessoa vai conseguir criar um sistema só conversando com a IA. O outro diz que a IA só gera código ruim e que ninguém sério usa isso no trabalho.

Sou programador full stack. Trabalho mais com backend em Java e Node, mas já mexi bastante com React e Angular também. Uso IA todo dia no trabalho e, na prática, nenhum dos dois discursos bate com o que eu vivo.

Minha opinião em uma frase

Não acho que a IA vá substituir programadores. Mas o meu trabalho mudou bastante: escrevo muito menos código e passo mais tempo pensando na solução e revisando o que a IA fez. E já tive problema sério quando não revisei.

Como eu uso IA hoje

Hoje uso principalmente o Claude Code. Já paguei a assinatura do meu bolso, e agora uso o plano da empresa. Antes disso testei o Gemini com o Antigravity, o Cursor e o GitHub Copilot.

Faz tempo que não escrevo um teste unitário na mão. Componente React também: explico o que preciso, a IA escreve e eu reviso.

Costumo dizer que deixei de ser o pedreiro pra ser o engenheiro da obra. Antes, boa parte do meu dia era digitar código repetitivo, procurar como se usa tal API, montar a estrutura dos testes. Hoje eu me preocupo mais com a arquitetura e com como resolver o problema, e bem menos com o código em si.

Outra coisa que me ajuda muito é entender código que eu não escrevi. Quando pego um projeto antigo e sem documentação, consigo perguntar pra IA por que um serviço chama o outro, de onde vem um dado, o que acontece se uma fila parar. É parecido com ter do lado a pessoa que escreveu aquele código, pra tirar as dúvidas. Antes eu levava horas lendo arquivo por arquivo pra chegar no mesmo entendimento.

Quando deu errado

A IA já errou comigo algumas vezes, quase sempre quando eu não revisei direito o que ela fez.

O caso mais sério foi numa funcionalidade nova. A IA não colocou um feature toggle, que é uma chave pra ligar e desligar a funcionalidade sem precisar publicar o sistema de novo. A gente usa isso justamente pra poder desligar algo que deu problema em produção. Eu não reparei que faltava, o código foi pro ar, deu problema, e como não tinha como desligar só aquela parte, tivemos que fazer rollback no meio do dia. Ficamos mais ou menos uma hora fora do ar.

A IA não tinha como saber que aquilo era obrigatório no nosso time. Quem tinha que ter visto era eu. Desde então leio com mais cuidado tudo que ela entrega, principalmente o que parece certo de primeira, porque é aí que os erros passam.

O que as pesquisas mostram

Fui atrás de estudos pra ver se a minha experiência batia com os números. Bate em parte.

Um estudo com 4.867 desenvolvedores na Microsoft, na Accenture e numa grande empresa americana sorteou quem ia receber um assistente de código com IA. Quem recebeu concluiu em média 26% mais tarefas, e quem tinha menos experiência foi quem mais ganhou.

Já um experimento da METR, de 2025, com 16 desenvolvedores experientes trabalhando em projetos de código aberto que eles conheciam bem, deu o resultado contrário: com IA, eles levaram 19% mais tempo pra terminar as tarefas. O mais curioso é que, mesmo assim, achavam que tinham ficado uns 20% mais rápidos. A METR avisa que o estudo foi feito com as ferramentas do começo de 2025 e que as versões mais novas devem se sair melhor.

E os próprios programadores não confiam muito. Na pesquisa do Stack Overflow de 2025, com cerca de 49 mil respostas, 84% disseram que usam ou pretendem usar IA. Mas 46% desconfiam da precisão das respostas, contra 33% que confiam. O problema mais citado, por 66% das pessoas, foi receber soluções que estão quase certas, mas não totalmente.

Foi exatamente o meu caso com o feature toggle. O código funcionava, só faltava uma coisa que a IA não tinha como adivinhar.

O que ainda é comigo

Mesmo com a IA escrevendo boa parte do código, o meu dia continua cheio. As coisas que mais ocupam meu tempo hoje são:

  • Conversar com o cliente pra entender o que ele precisa de verdade. Muitas vezes o pedido inicial não é bem o que resolve o problema dele, e isso só aparece conversando.
  • Montar a solução: como dividir o sistema, o que pode dar errado, como voltar atrás se der problema.
  • Revisar e criticar o código, seja da IA ou de colegas, sabendo das regras do time e do que já deu errado antes.

Pra fazer bem essas coisas, você precisa entender muito de desenvolvimento. A IA não tira essa necessidade, só muda onde ela é usada.

Vai substituir ou não?

Eu acho que não. Pra mim a IA é uma ferramenta muito poderosa, e quem aprender a usar bem vai conseguir entregar muito mais pra empresa.

Mas tem um lado que preocupa. Pesquisadores de Stanford analisaram dados de folha de pagamento nos Estados Unidos e viram que, desde o fim de 2022, o emprego de pessoas entre 22 e 25 anos nas profissões mais expostas à IA, entre elas a de desenvolvedor, caiu cerca de 13% em comparação com profissões menos expostas. Pra quem tem mais experiência nessas mesmas áreas, o emprego ficou estável ou até cresceu. Os autores dizem que ainda não dá pra afirmar que a causa é a IA, mas o resultado faz sentido com o que eu vejo: as tarefas que costumavam ficar com quem está começando, como escrever testes, fazer telas simples e corrigir bugs pequenos, são as que a IA faz melhor hoje.

Pra quem quer entrar na área

Eu não desistiria, mas me prepararia diferente:

  • Aprenda a base de verdade. Sem saber escrever o código, você não consegue perceber quando a IA errou.
  • Use a IA pra aprender, e não só pra entregar. Pergunte por que o código foi feito daquele jeito, peça outras formas de resolver, peça pra ela explicar um projeto que você não conhece.
  • Treine ler e revisar código, de colegas, de projetos abertos e da própria IA.
  • Aprenda a conversar com quem não é da área, entender o problema e explicar suas decisões. Cada vez mais o trabalho vai ser esse.

No fim, a IA tirou de mim a parte mais repetitiva do trabalho e me deixou mais tempo pra pensar nos problemas. Mas também me mostrou que, sem revisão, ela só faz a gente errar mais rápido.

Se você também usa IA no trabalho, quero saber como tem sido. Pode me mandar uma mensagem pelo contato ou no LinkedIn.

Fontes